Um
pequeno perfil pessoal de Milton H. Erickson, M.D.
Susana Hertelendy
O trabalho Mapa Mental solicitado para o curso "Hipnose Natural Ericksoniana" me trouxe à consciência que o que eu queria e necessitava nesse momento era um "contato pessoal", se assim posso me expressar, com o ser humano que foi Milton H. Erickson.
Por um daqueles acasos providenciais, ou melhor ainda, devido a uma sincronicidade de acontecimentos na conceituação Junguiana, uma amiga, professora universitária nos Estados Unidos, me trouxe de presente a última obra sobre esse psicólogo e hipnoterapeuta: uma biografia organizada pela filha, Betty Alice Erickson, e pelo Dr. Bradford Keeney.
Essa é uma história de vida contada pela esposa, pelos filhos e por colegas e amigos. O Mapa Mental que organizei baseia-se no Prefácio e na Introdução e nos dois primeiros capítulos do livro. Essa leitura foi o suficiente para deixar claro para mim que o que eu estou buscando com esse trabalho é conhecer um pouco da personalidade e da "alma" desse ser humano extraordinário que foi Milton Hyland Erickson, uma pessoa que superou obstáculos imensos ligados à sua saúde pessoal já que teve duas crises de pólio em sua vida e muitos períodos de intensa dor. Erickson conheceu a esposa quando esta ainda era uma estudante de graduação universitária. A, então, jovem Elizabeth trabalhou um tempo para ele como assistente de pesquisa. Um dia após a sua formatura, "fugiram" e casaram-se. Na sua própria descrição, "tornou-se a mãe instantânea" de três crianças, filhas dele. Ao todo, com os filhos que tiveram, educaram conjuntamente oito crianças.
Uma importante e emocionante declaração de Elizabeth Moore Erickson aparece no final do Prefácio da Biografia e refere-se a uma viagem que Erickson fez de trem em 1948. Dois médicos residentes acompanhavam-no pois ele estava muito mal. Na verdade, tinham decidido mudar de Michigan para Arizona, pois essa parecia a melhor opção para a sobrevivência dele. E ela seguia de carro com os quatro filhos sem saber se o marido estaria vivo quando chegassem no Estado de Arizona.
Transcrevo o pensamento dela aqui, numa livre tradução minha, como todas que aparecem nesse texto: " Lembro-me de pensar naquela ocasião, que eu preferia ter os 12 anos de vida que tive com ele do que uma vida inteira com qualquer outra pessoa. Vivi mais de 40 anos com o Milton e ele já se foi há 25 anos. Mas nunca perdi o pensamento de que ainda preferiria ter qualquer tempo com o Milton do que uma vida inteira com qualquer outra pessoa. Eu tive foi sorte de tê-lo tido por tanto tempo."
Milton Erickson educava seus filhos, alunos e pacientes das maneiras mais surpreendentes. Ele se interessava intensamente por plantas, árvores e pela natureza em geral. Observava diariamente o seu jardim. Uma tarefa era mandar que seus alunos e pacientes visitassem e observassem no Jardim Botânico a árvore Boojum, em latim Fouquieria Columnaris, originária do Deserto de Sonora, na California. Outra tarefa era sugerir que subissem as trilhas para Squaw Peak, a segunda montanha mais alta em Phoenix, Arizona e um marco importante na paisagem do Estado. Nas palavras da filha Roxanna "...inúmeros alunos foram direcionados para o Squaw Peak. E inúmeros retornavam comentando os aspectos da experiência que mudaram suas vidas: o esforço demandado pelo percurso, a presença de vida no meio agreste, a mudança de perspectiva, a vista clara do vale e o extraordinário dentro do ordinário." E o Mestre Erickson pontuava que "...desafio traz aprendizado e iluminação."
Erickson apreciava o belo. Juntamente com a esposa, tinha o hábito de comprar jóias feitas pelos índios. Um dia a filha pediu ao pai que comprasse um colar feito por nativos que tinha visto numa feira e achado lindo, mas que não podia adquirir porque era caro. O pai comprou e deu-o para a esposa. O colar tinha dois lados: na frente era um colar de turquesa, atrás era de coral vermelho. Por isso, disse que estava lhe dando dois presentes: um pelo aniversário e o outro, antecipando o Dia das Mães.
Com a compra de jóias em postos de venda de índios, Erickson e a esposa colaboravam para a divulgação da cultura indígena. Jim Hills, um antropólogo que desenvolveu pesquisas com os índios Seri do México, tinha um interesse especial pelos entalhes que estes faziam em madeira de lei. Sempre trazia peças para vender no Arizona e a primeira parada era na casa dos Erickson. Tanto Erickson como a mulher gostavam imensamente da arte indígena e davam todo o apoio possível aos índios e ao trabalho artístico que estes desenvolviam. Eles espalhavam as peças trazidas por Hills em sua casa e mostravam-nas para todos que vinham visitá-los. Hills conhecia pessoalmente os artistas em questão e conversava horas com Erickson sobre o talento de cada um enquanto examinavam detalhadamente cada obra.
Outro tema, trazido dessa vez pela filha Roxanna, era o humor do pai. Em família divertiam-se lendo as histórias de quadrinhos da época: Pato Donald, Luluzinha e outros. Certo dia, uma das filhas já casada tinha que fazer uma longa viagem com o marido e deixaram Earnest, o cão muito querido, com os pais. Muitas aventuras aconteceram durante a ausência do casal, mas um fato engraçado ocorreu na volta deles. Erickson esperou um pouco observando as boas-vindas cheias de emoção expressas pelo cachorro. E, de repente, no meio de toda a comoção, gritou: "Dad's dog!" No mesmo instante, Earnest parou de fazer festa para os "donos" e correu para junto de Erickson. Este, na cadeira de rodas, saiu do aposento e foi seguido pelo cão que, daí para frente, ficou ao seu lado ignorando solenemente Roxanna e o marido. Erickson ria às gargalhadas e a história transformou-se numa piada em família. Erickson tinha um profundo conhecimento da natureza humana e uma visão sobre a capacidade de superação do indivíduo. Sobre essas perspectivas, a filha Betty Alice, diz o seguinte: "Papai inspirava entusiasmadamente as pessoas a se esforçarem para alcançar os seus próprios picos de integração total. Tinha uma crença fervorosa no espírito de cada indivíduo. Lembro-me da ocasião em que disse à minha mãe que pessoas que constróem pirâmides e Machu Picchu, podem fazer qualquer coisa. Não se referia a esforço físico - referia-se ao espírito humano, à visão criativa das pessoas e a capacidades de imaginar novos significados para a vida."
É isso tudo que me inspira e me dá força, sobretudo quando lembro da viagem que ele fez de barco aos 17 anos durante uma fase de recuperação de uma crise de poliomielite. Inicialmente, Erickson combinou com um amigo de fazer a viagem, mas este desistiu quando chegou a hora. O jovem Milton decidiu não dizer aos pais que iria sózinho pois estes, certamente, não permitiriam a "aventura". Era difícil para ele andar. Carregar um barco, então, era quase impossível. Por isso, Erickson ficava sentado até que algum passante lhe perguntava o que estava fazendo. Ao ouvir a história, a pessoa perguntava se ele precisava de ajuda. E era isso que Erickson esperava pois não queria pedir. Quando ninguém aparecia, rastejava no chão e arrastava o barco atrás de si.
Transcrevo um parágrafo em que a filha, Betty Alice, se refere a um significado, talvez xamânico, dessa viagem: "Ouvi relatos de que, em outras culturas, uma peregrinação envolvendo um desafio físico ou a superação de uma doença, encontra-se no âmago de experiências de vida de xamãs e curandeiros. Não sei se o Papai sabia disso na ocasião em que fez a viagem. Mas o que eu sei é que essa viagem constituiu-se num passo grande e fundamental para que ele se tornasse um grande "curador" (*) e um grande ser humano."
A viagem de barco é uma longa história descrita num capítulo do livro entitulado "O diário do barco e um album de fotografias." Além disso, ao longo do trecho que li, há muitas referências a essa experiência.
Milton H. Erickson morreu em 1980. De 1962 a 1975 vivi nos Estados Unidos. Meu B.A. com "major" em psicologia foi concluído lá e conheci várias pessoas importantes na minha área. Lamento não tê-lo conhecido pessoalmente. Mas a sua influência e o seu espírito são tão grandes e marcantes, que me sinto grata por poder tê-lo hoje como inspiração, modelo e fonte de aprendizado.
(1) Resisto às palavras cura e curador em português. Em inglês, healer e healing têm a sua raiz na palavra grega holon, que significa inteiro, íntegro. Talvez uma forma de se usar a palavra cura seja no mesmo sentido de um queijo curado, ou seja, amadurecido, que passou pelo processo de amadurecimento. Talvez xamã e curandeiro se aproximem mais do sentido da palavra healer.
MILTON H. ERICKSON, M.D. - An American Healer
Edited by Betty Alice Erickson, M.S. and Bradford Keeny, Ph.D.
Ringing Rocks Press 3190 West Highway 89A, Suite 100
Sedona, Arizona 86336
In association with Leete's Island Books
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